Textos Apócrifos na Internet

 

Passarinho

Betty Vidigal

 

POEMINHA DO CONTRA

Todos estes que aí estão 

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão. 

Eu passarinho!

(Mario Quintana)

 

Direto ao ponto: se alguém dissesse a você que a crônica abaixo foi escrita por Mario Quintana, você acreditaria?

Promessas Matrimoniais

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja,
com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:
"Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?"
Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:
 

 Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

 Promete saber ser amiga e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

 Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

Promete se deixar conhecer?

 Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você,
e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?

Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declara-os maduros.”

 

É uma crônica bem escrita, sim, objetiva, crítica, construtiva e original – mas será que tem cara de Quintana? Mário Quintana é sempre 
delicado, terno. Um passarinho. (Eu disse “é”, e não “era”, porque me refiro ao que escrevia, aos seus poemas, 
e poemas nunca deixam de “ser”.)
Isto é Quintana:
         DEVAGARINHO
Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados.
Deixa em paz os passarinhos,
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
Enfim, 
Tem de ser bem devagarinho,
Que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Disse Quintana de si: “Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão,  instrospectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos 
a tratamentos.” No entanto, a personalidade que está por trás daquelas “Promessas Matrimoniais”  parece ao leitor uma personalidade 
extrovertida: não pode ser Mario. 
Além disso, a crônica pergunta “Promete saber ser amiga?”. É um sinal claro de que foi escrita por uma mulher. Um homem diria 
“Promete saber ser amigo?”.
Quando recebi aquela crônica, no mês passado, comentei com a pessoa que a enviara (numa apresentação em Power Point!) que não 
tinha o estilo de Mario. 
Quem mandou foi uma amiga, uma gaúcha. Gaúchos cultuam Quintana. Como podem pensar que essa crônica é dele? Mário nem sequer
gostava de escrever em prosa! 
Eis o início de uma carta sua a um jovem escritor: 

“Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo 
o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe 
quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo).” 
 
Foi fácil descobrir a autora das Promessas Matrimoniais: Martha Medeiros. Agora faz sentido! A crônica tem mesmo o jeito dela. 
E não há dúvida quanto à autoria: está no site pessoal da cronista, no portal Terra[1]. Na net, esse texto aparece como sendo da 
verdadeira autora em apenas 26 sites. E aparece atribuído a Mário Quintana em 139, quase todos mantidos por gaúchos. 
Martha Medeiros também é gaúcha, de Porto Alegre, onde Quintana viveu quase toda a sua vida e onde morreu, 
em 5 de maio de 1994[2]. (O prédio do antigo Hotel Majestic, onde ele viveu de 1968 a 1980, foi transformado na Casa de Cultura 
Mario Quintana, um espaço vivo e dinâmico, freqüentado por jovens intelectuais admiradores do poeta.)

Independente do estilo, um mínimo de aritmética é suficiente para estabelecer que aquele texto não pode ser de Mario:
começa referindo-se a algo que foi escrito pelo(a) autor(a) em 1998, ou seja: tem de ser posterior a 1998. Mario,
no entanto, morreu em 1994; não poderia, portanto, tê-lo escrito. CQD.

Esses gaúchos tão justamente orgulhosos de seu poeta poderiam lembrar disso: a data da morte de Mario;
a fundação da Casa de Cultura – que visitei em 1998 – e concluir que ele não poderia ter escrito essa crônica.

Uma curiosidade é que o site Romântica[3], dedicado à obra de Mário, bastante extenso, com biografia,
fotos e diversos poemas que realmente são dele, apesar de não ter as Promessas Matrimoniais,
inclui aquela famosa crônica sobre amizade que corre a net como sendo de Vinícius de Moraes e que já
demonstramos, nestas páginas, ter sido escrita por Paulo Sant’Anna, também um colunista do Zero Hora, como Martha.
(Os outros colunistas do ZH que se cuidem! Será que é daí que vem a maldição que persegue
Luis Fernando Veríssimo, de ter negada a autoria de textos que realmente escreveu e receber a duvidosa honra de
ser considerado autor de uma porção de coisas engraçadas que jamais escreveu e que jamais escreveria,
a menos que deixasse de ser Veríssimo?)

Segue uma crônica brevezinha de Quintana, em que ele traduz um poema de Queneau, aquele francês múltiplo,
dramaturgo exímio (não vá depois esse poema aparecer por aí como se de Quintana fosse!).

                                                PASSARINHO

Sempre me pareceu que um poema era algo assim como um passarinho engaiolado. E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um meticuloso
cuidado que nem todos têm.  Poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito. Não, o grito é o que mais o mata. É preciso
esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato.

Ora, pensava eu tudo isso e o céu também, quando topo com uns versos de Raymond Queneau, que
confirmam muito a minha cinegética transcendental. Eis por que aqui os traduzo, ou os adapto, e os adoto,
sem data venia:

“Meu Deus, que vontade me deu de escrever um poeminho...

Olha, agora mesmo vai passando um!

Pst pst pst

vem para cá para que te enfie

na fieira de meus outros poemas

vem cá para que eu te entube

nos comprimidos de minhas obras completas

vem cá para que eu te empoete

para que eu te enrime

para que eu te enritme

para que eu te enlire

para que eu te empégase

para que eu te enverse

para que eu te emprose

vem cá...

Vaca!

Escafedeu-se.” [4]

 Betty Vidigal


[1] http://almas.terra.com.br/martha/martha_17_02_2003.htm (o que significa que foi publicada em 17 de fevereiro do ano passado).

[2] Nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 30 de julho de  1906.

[3]http://www.veraperdigao.com.br/VP2-Homepage_Romanticas/menuhp/poesias/especiais/especiais_menu1/05mario_quintada/mario_quintada.htm

[4] original: “Bon dieu de bon dieu que j’ai envie d’écrire un petit poème / Tiens en voilà justement un qui passe 
/ Petit petit petit / Viens que je t’enfile / Sur le fil du collier de mes autres poèmes  / viens ici que je t’entube /
dans le comprimé de mes œuvres complètes  / viens ici que je t’enpapouète / et que je t’ennuie  /
et que je t’enrythme  / et que 1e t’enlyre  / et que je t’enpegase  / et que je t’enverse et que je t’enprose / la vache
/ il a foutu le camp.” (Raymond Queneau).